quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

A comunicabilidade humana em "Corpo e alma"



Finalista na disputa do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2018, o filme "Corpo e alma" (On Body and Soul/Teströl és lélekrölda diretora húngara Ildikó Enyedi apresenta a história de duas pessoas enamoradas numa narrativa com belas metáforas visuais e com um toque de fantasia. O filme se passa num abatedouro de Budapeste, onde conhecemos o ambiente dos trabalhadores e dos bois que estão esperando sua hora chegar. Os personagens principais da película são uma inspetora de controle de qualidade, Mária (Alexandra Borbély), e o dono do abatedouro, Endre (Géza Morcsányi). Ele é um deficiente físico que perdeu os movimentos de um dos braços, e ela, uma autista que treina incessantemente para se comunicar da maneira mais próxima das outras pessoas. A relação entre esses dois personagens no filme é explorada em dois níveis que se cruzam o tempo inteiro: o do sonho e o da vida real.

Tanto Mária quanto Endre sonham que são cervos vivendo numa floresta onde eles se encontram toda noite. Nesta narrativa, um dos destaques que pode chamar a atenção do espectador é a aproximação entre a relação dos humanos com a dos animais. Sabemos que o mundo dos animais é um mundo que gira em torno de sua relação estabelecida com a natureza. A existência dos animais num ambiente onde o seu corpo fora adaptado durante milhares de anos para sobreviver por si só basta. Nesse sentido, há comunicação entre eles, mas não é preciso haver a fala. Aliás, a palavra fala revela em seu étimo (fabulare) a noção de conversar e contar fábula, o que, de certa forma, coloca em jogo uma relação que se estabelece entre pelo menos duas pessoas.


Nesse aspecto, o filme põe em cena dois extremos: a comunicação dos animais que prescinde da língua, ou seja, da palavra, até chegar à falta da necessidade de comunicação humana que é a morte representada no filme pela cena de suicídio. Mária, nossa protagonista, não se comunica oralmente nos mesmos moldes das outras pessoas, mesmo tendo uma percepção sensitiva muito mais aguçada do que qualquer outro personagem. O desafio de Endre é justamente tentar estabelecer um relacionamento com sua funcionária, já que desde à primeira vista ela tinha chamado sua atenção (e vice-versa). É claro que muitos obstáculos surgem durante a aproximação desse casal devido às peculiaridades da protagonista.

Acompanhar o desenrolar dessa história de amor fora do padrão por adentrarmos num mundo pouco explorado foi uma boa experiência. A comunicação humana através da fala é o grande ponto-chave para entendermos o desenvolvimento dos personagens principais e de outros personagens periféricos. O desafio de Mária para se relacionar com Endre é quase tão penoso de assistir quanto o de Endre de tentar compreender a forma como ela se comunica com ele através de outros sinais (o olhar, os gestos corporais). O filme não erra ao acrescentar um toque de humor a diversas cenas com os dois. Neste filme, percebemos que os obstáculos no mundo humano que impedem duas pessoas de compartilharem suas existências são muitos, ainda que haja uma paixão entre elas, mas se as almas conseguem, de alguma maneira, se comunicar, os corpos também conseguem.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

A tragicomédia em "Elle"


O filme Elle (2016) estrelado pela musa do cinema francês Isabelle Huppert é mais um trabalho do diretor holandês Paul Verhoeven. A decisão do diretor de fazer o filme em francês surgiu pelo fato do roteiro ter sido rejeitado por diversas atrizes americanas de Hollywood. Foi aí que Paul decidiu aprender a falar francês, já que ele havia estudado um francês básico na escola quando era criança, para poder trabalhar com todo o elenco nessa língua estrangeira.

Nessa história, somos convidados a embarcar numa trama de gato e rato nada convencional. Dona de uma empresa de jogos virtuais, separada, mãe de um filho irresponsável já adulto, Michèlle (Isabelle Huppert) mora com seu gato numa casa grande e luxuosa. Logo no começo do filme, o espectador é jogado na cena em que Michèlle está sendo estuprada por um homem mascarado dentro de sua própria casa. O gato de estimação dela, aliás, está lá assistindo o estupro de sua dona do início ao fim.

Após o susto, Michèlle decide não denunciar o crime para a polícia; ela anuncia essa atitude num jantar em que estão reunidos um casal de amigos e seu ex-marido que, apesar de ficarem preocupados com a segurança dela, respeitam sua decisão. A trama vai ganhando um ar ainda maior de mistério, quando Michèlle começa a receber mensagens no seu celular do estuprador e até mesmo dentro de sua própria casa. Nossa protagonista entra, então, em uma caçada obsessiva atrás dele, à medida em que ela começa a desconfiar de vários homens que convivem com ela, especialmente dos colegas de trabalho que são seus subordinados na empresa que desenvolve jogos online. 


No entanto, os conflitos que surgem em torno da personagem não ficam restritos a essa caçada. O filme mostra outros problemas no âmbito familiar com os quais ela tem que se envolver. O filho que não consegue se estabilizar num emprego e que tem uma namorada grávida; a mãe já idosa que está num relacionamento sério com um michê; e, finalmente, seu pai que está preso por ter cometido uma chacina com a ajuda de Michèlle, quando ela era pequena. Em todos esses núcleos de relacionamento da protagonista, fica claro que ela é bastante resiliente e que desenvolveu uma atitude cínica diante da vida, já que ela está acostumada a conviver com a violência praticada pelas pessoas mais próximas, ou seja, pelos familiares. Apesar dessa atitude funcionar como um escudo para não se envolver com os problemas alheios, ela não deixa de observar o que está acontecendo com as pessoas a sua volta nem de continuar se relacionando com elas (ainda que haja um certo prazer em vê-las se dando mal de vez em quando). De volta ao jogo de gato e rato, Michèlle finalmente descobre quem é o seu estuprador e embarca na fantasia sexual dele. Não vou comentar outras cenas a partir daí para não atrapalhar tanto as surpresas do filme.

Com uma trama repleta de reviravoltas, Verhoever trabalha com a dualidade dos acontecimentos da vida de Michèlle, uma vida tragicômica, assim como qualquer outra, apesar de todos os traumas familiares e da violência causada pelo mundo. Ao final do filme, me parece que dizer que o perigo mora ao lado não é o suficiente. O perigo também pode morar debaixo do seu teto e debaixo do seu próprio nariz. Não deixem de conferir esse filme!

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

O desejo genuíno de ser prostituta em "Jovem e bela"


Quando pensamos em garotas de programa, raramente vem à nossa mente a imagem de uma jovem de 17 anos, colegial, vinda de uma família com condição financeira estável. Contudo, essa menina aparentemente comum que foge ao estereótipo de prostituta é a protagonista do filme Jovem e Bela (Jeune et Jolie) lançado em 2013, em mais uma intrigante narrativa de François Ozon.

No auge de sua adolescência, a jovem Isabelle (Marine Vacth) está ansiosa para ter sua primeira relação sexual. Isabelle encontra a tão esperada oportunidade nas férias de verão com a família, quando conhece na praia meninos de sua idade que se interessam por ela. Apesar de sua primeira experiência sexual não ter sido prazerosa e, até mesmo um pouco violenta pela falta de habilidade do rapaz, a menina entra em uma nova fase de sua vida. Após voltar de suas férias, Isabelle decide explorar mais sua sexualidade. Por ter um rosto muito bonito e atraente, ela sempre chamou a atenção de homens na rua e chegou a ser alvo de assédios em que eles ofereciam dinheiro para que pudessem ficar com ela. Essas contingências combinadas com a personalidade fria de Isabelle deram ânimo para que a menina começasse um empreendimento próprio: o de prostituir-se. Com o auxílio da internet, ela passa a divulgar suas fotos e seu contato para achar clientes. Dentro de pouco tempo, muitos homens passam a combinar encontros diurnos com ela.


O que mais chama atenção no filme é a naturalidade com que a protagonista mantém sua vida dupla em segredo dos amigos e da família. Em determinado momento do filme, Isabelle declara que o momento em que ela está atendendo seus clientes nem sempre é o que a atrai mais para esse tipo de vida. Por ouro lado, o mistério em não saber com quem ela irá se encontrar nem o lugar onde o encontro foi marcado é o que movia o interesse da jovem de 17 anos em continuar se prostituindo. Isabelle menciona que os encontros funcionavam como um jogo pra ela. Certamente, um jogo que mexia com a imaginação erótica da nossa protagonista.

De fato, não havia necessidade financeira envolvida nessa decisão, uma vez que Isabelle não sabia o que fazer com o dinheiro que ganhava dos programas. Dinheiro esse, inclusive, que, mais tarde, foi usado por ela, para pagar sessões com o analista quando, por um acaso, sua profissão é descoberta pela família. Apesar dos pais desaprovarem o que Isabelle fez e obrigarem a menina a desistir dessa profissão, o cotidiano familiar exibido no filme é bem retratado, pois inclui desde as reações escandalosas da família no momento da descoberta até chegar à compreensão, pelo menos por parte do padastro, do desejo da menina.


Esse mergulho na subjetividade feminina no filme de François Ozon mostra o que é a prostituição por puro interesse. Essa narrativa, claro, vai na contramão de outras narrativas que colocam a prostituição como um produto apenas da miséria, isto é, da falta de oportunidades para a mulher, ou como se a mulher que opta por ser prostituta não pudesse gostar de seu trabalho. O grande realce no filme de Ozon é o de mostrar não só que a mulher pode ter o desejo de ser prostituta, mas também de retratar como funciona a convivência familiar quando alguém decide ser prostituta na família.  

sexta-feira, 29 de julho de 2016

A morte social em "A caça"


Numa trama surpreendente, o filme dinamarquês A caça/The hunt (2012) de Thomas Vinterberg demonstra como a vida de um homem pode ser destruída simplesmente por um boato ter se espalhado em uma pequena cidade. Mas qual seria a natureza de um boato tão poderoso? Nada mais, nada menos do que a suspeita de pedofilia. Um dos assuntos menos discutidos em sociedade e o que causa mais ódio em muitas pessoas que começam a falar do assunto.

O filme nos mostra a confusão criada sobre um caso que aconteceu numa creche, em que um suposto abuso sexual ocorreu com uma das crianças. Como só havia um homem trabalhando lá, o suspeito em potencial se tornou o auxiliar da creche chamado Lucas, estrelado pelo ator dinamarquês Mads Mikkelsen. Uma vida inteira sem o histórico de abusos ou de qualquer outro tipo de violência não foi o suficiente para as pessoas mais próximas de Lucas darem, ao menos, o benefício da dúvida. A notícia se espalhou rapidamente pela cidade e ele teve que ser obrigado a se afastar do contato social para sua própria segurança.

Com um clima de suspense muito bem conduzido, acompanhamos o que acontece com a vida de um homem que é acusado de abuso sexual contra uma menininha através do tratamento que a sociedade lhe dá. A realidade ficcionalizada no filme não poderia ser mais terrível por parecer tão realista. Desde a perda do emprego, dos amigos, da namorada e até da possibilidade de frequentar locais públicos, o protagonista se vê refém de todos os conhecidos e desconhecidos da cidade. O sentimento de revolta e impotência cresce ao longo do filme mesmo depois da investigação da polícia ter concluído que não houve crime algum. Lucas sempre foi inocente e tentar provar isso para as outras pessoas é uma tarefa árdua e, muitas vezes, cruel.



Um dos aspectos que mais chama atenção no filme é a desconstrução da pureza da criança. A personagem Klara (Anikka Wedderkopp), a suposta vítima do abuso cometido por Lucas, conta para diretora o que aconteceu. Em seguida, a diretora da creche faz uma reunião com os pais, para falar dos sintomas que as crianças que sofreram abuso podem ter e, de repente, quase todas as criançassegundo os pais, começaram a apresentar sinais de que sofreram abusos. Depois disso, elas começaram a relatar que também foram abusadas por Lucas. É claro que, após a investigação da polícia, ficou claro que as crianças criaram essas histórias.

Contudo, o descuido dos adultos em lidar com uma suspeita de abuso sexual de uma criança, a desconfiança de todos os conhecidos que leva à julgamentos apressados e o espraiamento sem limites dessa acusação são alguns aspectos que podem ser realçados neste filme brilhante. Por fim, o sentimento de injustiça permanece com o espector, durante e depois do filme, pela tentativa de Lucas recuperar sua reputação depois de uma acusação dessa natureza.

Obs.: Mads MiIkkelsen foi o vencedor na categoria de melhor ator no Festival de Cannes, em 2012.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

A morte com dignidade em "O filho de Saul"


O filme húngaro O filho de Saul/A Saul fia (2015) de László Nemes é um magnífico exemplo de que nenhum tema pode ser considerado esgotado quando estamos no âmbito da arte. Baseado no contexto da segunda guerra mundial, somos expostos a um grupo de judeus que são obrigados a trabalhar para o exército alemão nazista conhecido como Sonderkommandos. Os membros desse grupo são responsáveis por levar os prisioneiros judeus para a câmara de gás. Após a morte rápida de centenas de pessoas, esses trabalhadores tem pouco tempo para limpar o local onde os judeus acabaram de morrer para poder receber novos grupos e dar continuidade ao abatedouro humano. O ritmo do filme é acelerado, pois não para de chegar judeus no campo de concentração (mais do que fora previsto, aliás). O ritual da carnificina só é finalizado depois que os corpos passam pelo processo de cremação; quando suas cinzas, finalmente, são jogadas nas águas de um rio próximo ao campo de concentração.


Diferentemente de todos os outros filmes sobre o Holocausto que se preocupam em causar forte comoção por milhares de mortes no campo de concentração, este filme foca nas ações do nosso protagonista: Saul (Géza Rohrig). Tendo um perfil pálido, seco e inexpressivo, Saul trabalha feito uma máquina naquele lugar, parecendo já estar habituado com aquela situação imersa no horror. Ele está distante de qualquer tipo de emoção ligada àquele ambiente, concentrando-se apenas na eficácia de seu trabalho. No entanto, conhecemos um pouco mais de Saul quando um garoto que resiste a uma sessão na câmara de gás é atendido por um médico. Rapidamente, os médicos dão um jeito de se livrar daquele jovem judeu. É nesse momento que uma virada no filme acontece, pois Saul fica absolutamente comovido ao ver o menino dar seus últimos suspiros de vida, dando a entender que ele não só o conhecia como também tinha uma forte ligação com ele.


Descobrimos, então, que aquele menino é o filho de Saul; apesar dessa informação soar estranha aos ouvidos dos companheiros de Saul que já o conheciam de longa data. A partir dessa situação, inicia-se uma busca por um rabino que irá realizar uma oração (uma espécie de extrema unção) antes de Saul dar um enterro digno para o menino. Esta é a missão que Saul coloca para si mesmo. Obviamente tudo tem que ser feito na surdina porque o fato de um judeu ter a audácia de professar sua fé num lugar que existe justamente para matá-lo por conta da sua cultura é muito mais do que uma ironia; é uma afronta. Saul busca um rabino dentre os prisioneiros do campo de concentração para realizar esse ritual e, em seguida, enterrar o corpo de seu filho. Ele faz tudo isso para mostrar para os alemães nazistas como se enterra dignamente um ente querido segundo as tradições judaicas.

Dentre as inúmeras situações de perigo pelas quais o protagonista passa, o diretor László Nemes optou por apresentar o cotidiano do campo de concentração por meio do som. Somos expostos a todo tipo de crueldade, sofrimento e angústia apenas pelo som, pois a câmera acompanha o protagonista; algumas vezes posicionada na nuca de Saul ou bem em frente ao rosto dele. Tudo que se passa no segundo plano do filme está embaçado, por isso temos uma visão muito estreita do ambiente. Só podemos ver o que se passa no campo de visão do protagonista. Por isso, a experiência sonora nesse filme é tão importante. 

É impressionante como nós somos perturbados pelas vozes, gritos, choros e gemidos que são uma tentativa de reconstruir o horror que existia no campo de concentração numa maneira diferente de tudo que já vi. Além disso, a língua falada também é outro aspecto que merece destaque no filme, já que os homens começam a construir relações entre si por reconhecerem os dialetos uns dos outros. Também vale a pena ressaltar que este é um filme que reúne vários idiomas da Europa Central como o húngaro, o alemão, o polonês, etc, o que faz os comentários linguísticos presentes nos diálogos serem um forte elemento de identidade entre os personagens.

Neste filme, somos expostos de maneira visceral ao cotidiano de um homem que se agarra a sua crença para resistir ao horror que está a sua volta. Este é o último elemento de dignidade de um homem completamente humilhado, reduzido a nada, que foi forçado a contribuir com o holocausto. Saul tem fé na sua religião, na sua cultura e é movido por ela na tentativa de dar um enterro digno a seu filho, apesar de ter sua existência destruída justamente por essa crença. O final do filme ganha um toque místico de alta sensibilidade pelo fato desse aspecto ser crucial em sua narrativa. Afinal de contas, foi esse gesto de amor ao outro que fez o nosso personagem não se tornar um autômato. Sem dúvidas, essa é uma bela mensagem para um acontecimento histórico que não nos traz esperança. O cinema minimalista europeu ganha mais uma joia para sua coleção com O filho de Saul.

domingo, 6 de setembro de 2015

Dom Quixote: um pagador de promessas


Em 2002, o livro O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha foi considerado o melhor romance de todos os tempos. Antes disso, esse clássico já havia sido elogiado por diversos autores que também fazem parte do cânone da literatura universal como o escritor russo Fiódor Dostoiévski, que, certa vez, fez a seguinte declaração: "Jamais será encontrado um texto tão profundo e poderoso quanto este. A maior e definitiva expressão do gênio humano".

Na Teoria Literária, Dom Quixote é considerado o primeiro romance moderno. O tema do romance de Cervantes é construído em torno do fidalgo Alonso Quejada que, um dia, tem um disparate e se convence de que ele faria renascer o exercício da cavalaria, que já havia desaparecido há tempos. No romance moderno, a figura do narrador representa um resíduo de oralidade das antigas formas narrativas e, nesse espaço, insere-se o elemento da melancolia pelo narrador. Walter Benjamin explora o romance de Cervantes por meio desta figura que irá falar de suas frustrações, angústias, etc. Nesse gênero fundador da modernidade, há o surgimento da consciência moderna que, para Walter Benjamin, está ligado à inserção do impulso melancólico proveniente da perda de um objeto. O desejo da literatura seria, portanto, resgatar esse objeto perdido, negando qualquer separação passada.

O leitor moderno entra em estado de solidão no momento da leitura. O contato com o romance traz para ele a melancolia, que às vezes, vem disfarçada de humor e ironia. Desse modo, o romance funciona como um espelho do leitor que se vê imerso em sua subjetividade, que, por sua vez, é um dos grandes temas da filosofia.

Tradicionalmente, o sujeito moderno é construído por três aspectos: a consciência, a identidade e a autodeterminação. No livro Esferas I de Peter Sloterdijk, busca-se compreender como o ser humano se torna um ser apto a criar relações por meio de uma arqueologia da intimidade na formação da subjetividade. No primeiro livro da trilogia Esferas, depreende-se que o homem, ao nascer, se auto constitui como um cumpridor de promessas que ele põe para ele próprio, no intuito de dar sentido a sua existência para criar um forte vínculo com o mundo. Desse modo, Sloterdijk diz que o homem é um animal mal nascido, pois ele não nasce pronto para lidar com o mundo como os outros animais. Para sobreviver no mundo, ele precisa criar seu próprio mundo por meio da colocação de promessas para agir, isto é, o homem tem a necessidade de tornar-se sujeito, colocando-se em exercício para cumprir as promessas que ele coloca para si próprio.


O engenhoso fidalgo de La Mancha de Cervantes mostra o nascimento do homem como sujeito, isto é, aquele que se põe em ação a partir da criação de seu próprio mundo (de suas crenças). No primeiro volume do romance Dom Quixote, cujo título é “que trata da condição e do exercício do famoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha”, somos apresentados ao nosso engenhoso fidalgo em sua morada e acompanhamos o que o levou a tomar a decisão de se colocar em exercício de cavaleiro andante. O narrador apresenta uma justificativa incomum para a tomada de decisão do Quixote:

[...] este fidalgo, nos intervalos que tinha de ócio (que eram mais do ano), se dava a ler livros de cavalarias, com tanta afeição e gosto, que se esqueceu quase de todo exercício da caça, e até da administração dos seus bens; e a tanta chegou a sua curiosidade e desatino a esse ponto, que vendeu muitos trechos de terra de semeadura para comprar livros de cavalaria pra ler, com o que juntou em casa quantos pôde ganhar daquele gênero. [...] (capítulo I)

Neste primeiro momento, percebemos que Dom Quixote recebeu a influência de personagens fictícios para construir o seu próprio mundo. O narrador conta que o nosso fidalgo enlouqueceu - de maneira bem poética - ao incorporar aquilo que só existia na ficção para a realidade. O elemento da loucura de D. Quixote talvez seja a possibilidade única de enxergar a realidade; essa é a falta de juízo que o acometeu.
Em suma, tanto naquelas leituras se enfrascou, que passava as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro, e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro, de maneira que chegou a perder o juízo. Encheu-se-lhe a fantasia de tudo que achava nos livros, assim de encantamentos, como pendências, batalhas, desafios, feridas, requebros, amores, tormentas e disparates impossíveis; e assentou-se-lhe de tal modo na imaginação ser verdade toda aquela máquina de sonhadas invenções que lia, que para ele não havia história mais certa no mundo. (capítulo I)
 A partir desse momento, D. Quixote é criado na narrativa (inclusive o próprio nome Dom Quixote de la Mancha é inventado por nosso personagem). Sloterdijk diz que o sujeito é aquele que se coloca em ação por meio do exercício. Logo após a decisão de se tornar cavaleiro andante, D. Quixote vai atrás de aventuras para se consagrar cavaleiro:


(...) pareceu-lhe convinhável e necessário, assim para aumento de sua honra própria, como para proveito da república, fazer-se cavaleiro andante, e ir-se por todo o mundo, com as suas armas e cavalo, à cata de aventuras, e exercitar-se em tudo o que tinha lido se exercitavam os da andante cavalaria, desfazendo todo o gênero de agravos, e pondo-se em ocasiões e perigos, donde, levando-os a cabo, cobrasse perpétuo nome e fama (capítulo I).

O romance, de maneira geral, mostra o exercício de Quixote em se tornar cavaleiro andante em suas ações cotidianas. Dom Quixote entra em milhares de confusões e aventuras criadas por ele mesmo. Uma de suas aventuras mais emblemáticas é a dos moinhos de vento: 
 [...] enquanto Sancho tece seu comentário, Quixote começa a ouvir um som agudo e alto, parando de andar.
Quixote: Veja, Sancho! Bem no início de nossa jornada: um gigante!
Sancho: Um gigante? Aonde, senhor?
Quixote: Ali, Sancho: com os braços enormes e abertos, rodopiando-os no ar.
Sancho: Olhe bem, senhor: “aquilo” não são gigantes e sim moinhos de vento. E o que o senhor pensa que são braços, na verdade são as pás dos moinhos.
Quixote: Ainda que movam mais braços do que o gigante Briareu, hão de me pagar!
Sancho assusta-se com a atitude de seu amo e observa-o, de longe. Acontece a luta entre cavaleiro e gigante/ moinho, culminando na queda de Quixote.
Sancho: Não disse senhor, que eram moinhos e não gigantes?
Quixote: Bem se vê que você nada entende de assunto de aventuras. São as coisas da guerra: de todas, as mais sujeitas a contínuas mudanças. O que eu creio é que... algum feiticeiro, inimigo meu, transformou estes gigantes em moinhos, só para me desmoralizar. Mas pouco há de valer suas más artes contra a bondade da minha espada!
 A crença de Dom Quixote é que o move durante toda a narrativa, isto é, o que o coloca em ação em busca da realização de suas promessas. Esse seria o protótipo de sujeito pensado pelo filósofo alemão Peter Sloterdijk por meio da colocação de promessas para si próprio que, por sua vez, leva à prática de exercícios.

sábado, 30 de maio de 2015

A unidade dual em "O caderno"


É com essa fotografia, que reproduz a imagem de "gêmeos siameses", retirada do filme húngaro A nagy füzet do diretor János Szász (2013), traduzido para o português como O caderno da esperança, que apresento o tema deste texto. O filme apresenta a história de dois irmãos gêmeos que passam por mudanças drásticas em suas vidas por causa da invasão de tropas nazistas na Hungria durante a segunda guerra mundial. Um dos aspectos que pretendo explorar sobre esse filme é o trabalho formidável do diretor em mostrar, através de várias estratégias, como os dois irmãos gêmeos são uma só pessoa.

Logo no início do filme, a mãe dos dois personagens principais faz uma declaração significativa, dirigida ao pai, que irá se desenvolver ao longo da trama, afirmando que "os dois são um", no momento em que o pai pensa em separá-los devido ao perigo iminente da guerra que os aterrorizava. No final desse breve conflito familiar, os pais decidem mandar os dois irmãos para viver no interior do país junto com a desconhecida avó, em uma realidade social inferior àquela que os dois meninos estavam acostumados a viver. É a partir disso que a trama do filme se desenvolve de maneira original e surpreendente.

Um dos elementos mais importantes para a narrativa do filme é o caderno que os meninos ganham quando deixam sua casa e seus pais. O fato é que os dois meninos possuem apenas um caderno e, em vários momentos, nós, espectadores, não sabemos quem está escrevendo. É nele que os dois irmãos começam a planejar sua maneira de sobreviver ao convívio não só com tropas do exército nazista mas também com todas as pessoas daquele lugar esquecido por Deus, registrando tudo o que está acontecendo com eles. Nessas cenas da escritura do caderno, percebemos que não há nenhum conflito entre eles em relação a quem irá escrever no caderno e o que será escrito lá. É como se os dois compartilhassem as mesmas ideias e os mesmos sentimentos diante de todos os acontecimentos.



Outra cena que reforça esse jogo do dois em um é a dos gêmeos lendo juntos em voz alta, onde a voz de um irmão torna-se o eco da voz do outro irmão, ampliando, assim, a ressonância entre eles. Nessas cenas de leitura ressonante dos dois irmãos, é inevitável lembrar das ideias do filósofo alemão Peter Sloterdijk em que ele defende que nós, seres humanos, somos duplos por estarmos sempre em companhia de um outro, que pode ser facilmente percebido pela voz que conversa conosco e que não nos perturba, pois reconhecemos que esse outro que está ali também faz parte de nós.


Em um determinado momento do filme, há um bombardeio na cidade onde os dois meninos decidem fazer uma experiência. Nessa cena, os dois irmãos tornam-se o sentido um do outro, onde um venda os olhos e o outro tampa os ouvidos, fazendo com que eles se tornem os olhos e os ouvidos um do outro. Aqui fica ainda mais claro compreender que um irmão faz parte um do outro física e mentalmente. Outra série de cenas que nos dá a impressão dos dois irmãos serem apenas uma pessoa refere-se ao momento em que os gêmeos estão dormindo juntos. Toda vez que eles acordam (ou são acordados), os dois meninos sempre abrem os olhos ao mesmo tempo. Essa cena é repetida inúmeras vezes ao longo do filme, passando-nos a ideia de que há uma ligação muito forte entre os dois irmãos. (Vale mencionar aqui as diversas cenas que compõem o filme e que quebram nossas expectativas quanto ao que vai acontecer com os gêmeos.)


Apesar dos meninos passarem por inúmeros maltratos ao longo do filme, a única dor que seria insuportável para eles é o momento em que estão separados; esse é um dos únicos acontecimentos que nos mostra um forte sofrimento para os dois meninos que, até então, pareciam conseguir resistir à toda crueldade que os cercava. Esse fato é bastante significativo, pois, segundo a teoria da subjetividade de Sloterdijk, o sujeito se desenvolve no "espaço-com"; não podemos nos separar do nosso "com" íntimo que nos faz companhia e nos constitui como sujeitos.

Ao final do filme, quando já não há mais guerra e os meninos já não tem mais ninguém que pudesse cuidar deles, ficamos com a sensação de que cada um dos gêmeos se tornou uma pessoa diferente, isto é, de que os irmãos se tornaram individualizados. Podemos perceber isso através de diversos detalhes como o fato dos meninos começarem a dormir separados, usarem roupas diferentes, e, finalmente, se livrarem do caderno. Contudo, nada nos impede de pensar que aquela unidade na qual cada um deles se transformou continua sendo dual, pois, em seu cerne, ela se formou e permanecerá sendo assim.

Observações:
1.     Esse texto foi fruto das conversas e discussões feitas após eu ter assistido a esse filme no cinema durante o IV encontro do filósofo Peter Sloterdijk no CEFA (http://cefa.pro.br/), em São Paulo.

2.   Não gostei da escolha do título do filme em português "O caderno da esperança", pois na trama do filme não há nada relacionado à ideia de esperança. Além disso, nagy em húngaro é grande e fuzet, caderno. No máximo, eles poderiam ter traduzido o título, como em francês (Le grand cahier), para "O grande caderno".